Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Contentores



A mão procura dentro da escuridão das sobras
Onde não há lugar para respirar
Entre fezes de crescimento rápido
E os portões que se encerram ao tempo de amar

Os brinquedos escondem as necessidades trogloditas
Das gentes famintas submersas pelo degredo
Porque os dedos de unhas negras poluídas
Esgaravatam nos buracos encenando jogos de escondidas
Enquanto os suínos se inundam de notas
E no tilintar falsete das moedas

Os contentores encerram o grito dos aflitos
O dióxido de carbono dos asfixiados pelo morder da língua
Pelas metralhadoras enfeitadas de diabretes fedorentos
Onde a lei da bala abalroa a melodia das andorinhas
Enquanto as crianças são massacradas e mortas à míngua

Os contentores fechados a cadeado
Que se perdem no mercado inundado de penúria
Transportam o selo da morte da amargura
Conduzem pela guilhotina ao holocausto subtil
Anulando o riso o abraço e a brisa primaveril


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