Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

domingo, 17 de janeiro de 2016

Inquietude



A inquietude subiu à tona e na sua fúria rebelde
Afastou a calma da superfície líquida
E encenou um maremoto devorador de essências
Expressas em códigos diluentes no leito traidor

O gelo tentou aprisionar o choro e a fome
Desta inquietude que não se ilude
Porque não tem corpo nem altar na igreja
Não tropeça porque não tem pernas
Não agride nem abraça porque não tem mãos
Não implora não opina não se senta nem rasteja

Apenas a inquietude transtorna
Provoca o vómito uma enxaqueca incómoda
E vibra perante olhos húmidos
De pálpebras insubmissas pois que se abrem
Mesmo quando o sono se quer instalar
E se fecham quando seria tempo de celebrar

A inquietude desenha cruelmente uma ferida
Aberta na garganta alheia
E veda o alimento ao faminto
Agita-se sobressaltada e indiferente
Volta as costas contaminando o Mundo descarada


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