Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sábado, 30 de janeiro de 2016

Invólucro



Salgo o meu minúsculo corpo ao calor abrasador do sol
E espero a revolta das marés
Expelindo as anémonas as ratazanas sobreviventes nos esgotos
As baleias bebés
Que dão à costa reféns dos excrementos humanos

Tempero o invólucro onde me aninho
Com as ervas aromáticas da planície
E aguardo a entrada do asteroide gélido e obscuro
Onde os predadores colocaram os ovos
Em premeditação de outros povoamentos e aventuras
Extinguindo os fracos e convertidos
Do sanatório da descrença faminta do circo
Onde os  palhaços saltitões fazedores de risos
Se escondem sobressaltados pelas lágrimas dos indecisos

Acorrento os meus destroços à boia de salvação
Que se esvazia num mar noturno
Onde a lua se foi deitar com outra entidade mais fria
Abandonando as criaturas à sua sorte
Efetuando o compromisso cósmico da alienação

Divido os membros como as horas do dia
Que batem em relógio enferrujado de corda
Trazendo ao presente as vitórias e as derrotas do passado
Numa amálgama sem som sem sabor
Apenas uma massa cinzenta informe inerte
Que se impõe aos glóbulos oculares
Das passarolas voadoras em  espaços incertos
E que sorvo na invisibilidade dos esqueletos

Espero a fúria dos vulcões
A tempestade de areia
O fervilhar dos oceanos
Porque as ramelas que caem
Do olhar humano em pestilência
Precisam do banho marinho
Purificador da prolífera indecência

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