Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Passadiço



Abrem-se os olhos das crianças fixando
Partículas do mundo oculto sobre a minha cabeça
Surpreende-me o seu sorriso como se contemplassem
Um carrossel de fadas da floresta cintilante
Na mágica penetração dos raios solares em flagrante

Perguntam-se o que faço aqui
Porque me abandono à rotina patológica da cegueira
Porque caminho sempre pelo mesmo trilho cinzento
Em incongruente e autómata fileira

As ondas revoltadas do mar bem me segredam
Que por aqui não devo estar
Antes partir à deriva do que ficar
Nunca deixar de caminhar
Mas os pórticos assinalam apenas
A passagem dos privilegiados do poderio económico
Enquanto os criativos se suicidam
Nos cornos da besta monetária
Desiludidos e cansados
Com a desenvergonhada canalha

Este passadiço amordaça-me a alma
A corda aperta-me os membros limita-me os passos
E mesmo que erga o meu rosto crispado ao alto
O firmamento traz-me de volta um recado de desilusão
Pois os pernaltas continuam na dança macabra
De rotulagem e etiquetagem de produtos vendáveis
Que ninguém quer nem precisa mas todos compram
Sem saberem a besta gigantesca que montam 

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