Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sábado, 28 de maio de 2016

Mantos

Foto: José Lorvão

Esvoaçam os mantos de transparência
Diluída pelos compartimentos onde as viroses se escondem
Da acidez da desinfeção colorida
Os beijos são amantes que assinam pactos
De poder e controlo
Enquanto os cabelos esvoaçam entrelaçados
Num vício incontrolado de entrançados

Os iniciados dão o grito de alerta
E do fundo do seu âmago fazem ecoar as vozes de sobrevivência
Mas os mantos diluídos absorvem os materiais da corrupção
E unem tentáculos e línguas bífidas em uníssono opinativo
Enforcando e crucificando à revelia 
Em luta de grunhos pelo mesmo espaço

Enleiam-se as serpentes protegendo o ninho
Balançam-se ao sabor da fome mordendo as criaturas
Injetando veneno e esperando gulosas
A paralisia das vítimas silenciosas

Os mantos de transparência gesticulam
Como aves de ricas plumagens
Em espetáculos gratuitos nos antípodas da delicadeza
Onde a ferocidade dos galináceos adquire a tonalidade das penas
De suave toque mas de alergia certa
Contaminando a ética deontológica feita de engates
Onde já não há cérebros pois foram ocupados
Por galhofentos e esvoaçantes trastes

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