Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

domingo, 22 de maio de 2016

Por um fio



Fixo o olhar no limite onde as árvores abraçam o céu azul
Que inquietas se surpreendem com a minha tristeza contagiante
Enquanto os patos chapinham indiferentes
Às preocupações que me rebentam na mente
O fôlego fica suspenso por um fio e o enforcado
Espera que a corda se parta e a queda seja suave

O sangue ressalta na palidez da pele por um fio
E por um fio a garganta cala o grito
Arquitetando cenários de revolta reviravolta e caos
Onde os pedaços dos corpos se vendem a troco de nada
Porque a respiração dos primatas tem o tempo contado
E os caninos dos felinos apodrecem
Enquanto as barbatanas dos tubarões acariciam
O ego dos trogloditas condenados

Quando sentir a vida por um fio quero subir a montanha
Dançar ao ritmo da chuva chapinhar de pés descalços nos regatos
Apanhar flores silvestres e rodopiar com elas sobre a erva
Saltar ao ritmo das borboletas em flutuação perene
Sorrir ouvindo o canto dos pássaros
Sentir o prolongamento das asas planando incógnita
De alma lavada mas desconhecida e deixar-me adormecer
Numa simbiose quântica com tudo e a nada pertencer


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