Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sexta-feira, 3 de junho de 2016

O espírito da floresta



O espírito da floresta inundou as veredas
De raízes entrelaçadas sustentando o teto das grutas escuras
Onde os morcegos trocam de lugar
E aguardam o saborear dos frutos maduros
Expelindo as sementes que assinam acordos com a turfa
E nos abraços do sol se deleitam
Em paliçadas erguidas do chão sagrado

Ainda é tempo das cigarras silenciarem o crepitar estridente
E captarem as melodias verdejantes de outros seres
Que à capela cruzam vozes pintam quadros
De outras formas e cores
De outras criaturas que cinzelam a pedra
E criam movimento e encantamento

O espírito da floresta protetor das crianças
Que se balançam nos ramos das árvores
E brinca com elas o jogo das escondidas
Faz crescer os fungos aberrantes que atraem os ingénuos
Os fascinados pela beleza aparente de um arco-íris inexistente

O estio chegará com as cigarras estouvadas
A insistirem na algazarra estridente
Quem sabe se finalmente partirão para um lugar incerto
Deixando-se seduzir pelo odor de fungos vistosos
A saltitar aqui e ali para regressarem ao estado larvar
E sem o espírito da floresta incomodar

Sem comentários:

Enviar um comentário