Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Grito



Ahhhhhhhhh!!!!!
Este grito suspenso de revolta
Onde não há ódio e a desilusão se solta
Faz parte do enleio do novelo à minha medida
Tem o carimbo roxo das nódoas negras
Que me causaram no peito sem dó num insulto
Enquanto o carrasco rastejante anda à solta
Porque a justiça tarda é cega surda e muda

Ahhhhhhhh!!!!!
Quero gritar bem lá no cume da montanha
Onde ninguém ouve mas o divino nunca se engana
Embrenhar-me no bosque denso
Descobrir o cheiro salvador a incenso
E num gesto magnético atirar para outra dimensão
As criaturas mais reles recheadas eternamente de podridão
Grito anunciador das terras queimadas
Onde o cobarde se esconde  os inocentes morrem
E os devoradores de espectros se consomem

Ahhhhhh!!!!
Bramido anunciador de um ventre estéril
Secando as estações do germinar dos regatos
Um pedido piedoso de quem quer descansar
Nada mais tem para dar
Porque a respiração cessou o batimento cardíaco parou
E tem consciência que o inferno sobre a Terra desabou

Ahhhhhhh!!!!
Mãe das flores e das searas dos rios dos lagos e dos mares
Ampara a minha queda porque já sinto
A espada esquartejar o corpo
E exige silêncio prendendo os maxilares
Quero embrenhar-me no invisível
Pois estou farta dos jogos de ganhar e perder
E já nada!!!
Mas mesmo nada tenho para dizer!

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