Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Para chegar a ti



Para chegar a ti!
Percorri o caminho mais longo
Abri veredas onde outrora era mato
Expandindo um sentimento de sobrevivência inato
Evitei as serpentes e as más gentes
Desviei-me das pedras sobre a cabeça
Certeiras no trajeto mas que o divino sempre desviou

Para chegar a ti!
Deixei que nos membros se abrissem chagas
Aprendi a abrir os velhos livros a ler herméticas páginas
Com a curiosidade de criança ouvi a melodia das sílabas
E cantei como só o canto afasta para longe os agoiros
Que bloqueiam os luminosos respiradouros

Para chegar a ti!
Penitenciei-me em décadas de amarguras onde o cobarde
Me cravejou de falsos amores espinhosos
E o sal das lágrimas me secou na pele
Projetos de tormenta ansiosos

Para chegar a ti!
Rompi o vestido simbólico de um contrato limitado
Rasguei o mais paradoxal retrato
Coloquei no lixo a quimera desfeita em pó
E a rutura explodiu no rosto de uma cultura apodrecida e sem dó

Para chegar a ti!
Percorri almas penadas
Lancei-me em correria louca em intermitentes estradas
E em explorações desavindas provoquei o perigo
Sem me dar conta de que a minha velha alma
Almejava apenas desde o dia em que nascera pelo teu abrigo 

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