Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

domingo, 16 de outubro de 2016

Acidez



Os ácidos agitam-se no estômago frágil
Onde as úlceras abrem o revestimento
Protetor dos dissabores da selva humana
Enquanto se apertam os canais da respiração abafada
Os projetos de vida esvoaçam para longe
Porque o solo é minado
Deixou de ser sagrado
E renasceram vozes que provêm
Dos mostrengos mais horrorosos
Sem nada para dar
Tudo para tirar em contrapontos ociosos

O mundo humano estancou
Parasita explorador se tornou
Em assassino se aperfeiçoou
E levo comigo a vergonha
De fazer parte deste elo de ligação
Mas parti-lo-ei mesmo sem perdão

Passo-me cada vez com mais insistência
Para o outro lado do véu
Onde se sente o quão perto se está do céu
E tocá-lo e abraçá-lo sentindo
O trespassar duma unidade que cintila
Um poder sereno de um ser inteiro que não vacila
Estou a caminho da prometida viagem
Sem regresso pois nada há para repetir
E foi profícua a aprendizagem

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