Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

domingo, 16 de outubro de 2016

Contrato social




O contrato social ergue-se com medo da morte do caos
E a organização da sobrevivência na defesa da colmeia
Anuncia o zumbir das abelhas na divisão das tarefas
Na recolha do néctar das flores em ritmos sincopados
E orientados para o voo efêmero interdependente
Onde a flora e a fauna se registam na virtualidade
Que produz o agitar das criaturas norteadas pela primordial vontade

As formigas procuram sempre o mesmo carreiro
Escondem-se no seu próprio formigueiro
Recolhem os alimentos que perpetuarão a colónia
Nos pastos dos devoradores de matéria
Esperando a pisada seca e forte da manada


Mas anuncia-se o frémito quântico
Um enxergar finalmente a paz de um recanto
Onde os corpos se distendem e as probabilidades
Anunciam a renovação sem rótulos nem divisões
De seres orgânicos e inorgânicos sem coroa nem crista
Sem distinção entre sujeito e objeto
Porque a arte é o prolongamento do artista

Estamos muito longe de ser burros enfeitados de palas nos olhos
Que só se dão conta de um caminho uma forma de ser
As convenções humanas são afastamentos vetoriais da Natureza
São códigos falsetes duma estabilidade irreal
Tudo se altera tudo se baralha
E as cartas apresentam apenas as regras inventadas
Do jogo do contrato social disfarçado de igualdade que ilude e extasia
Pois a democracia é a contínua aproximação a um estado ideal de perfeição
Um vazio virtual de verosimilhanças onde nos transformamos
Em plausíveis ondas cósmicas de energia


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