Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Dissimulação



As ventosas do polvo tocam ao de leve
Nas teclas pretas e brancas do piano de cauda
Alonga-se e encolhe-se conforme o ambiente que o abraça
Por vezes pavoneia-se deitando faíscas de ódio
Pelos sensores  pardacentos
Enquanto o dedilhar das enguias elétricas
É território de execução
O mimetismo da criatura dá-lhe ordem de soltura
Para preparar a ferroada no ser bem-intencionado
A dissimulação abre os tentáculos e ri-se da queda
Dos que se instalam em território partilhado

Esta catraia é elegante de garras prontas
Opinativa e dada a afrontas
Traidora e desprendida
Viúva negra aracnídea
Tece o rendilhado da armadilha
E espera que a mosca atarantada e nervosa
Num voo fugidio lhe caia em cima

A dissimulação é irmã da hipocrisia
Prima da falta de entusiasmo da preguiça
Que torna tudo um novelo e enguiça
Que conta as horas que se escapa nas hordas  
Que trinca o alimento mais por diversão
Do que por necessidade de  sustento

A dissimulação é filha da ganância
Que aposta no jogo da prepotência
Tem falta de paciência
Quer ser rainha das falácias das chalaças
Das difamações das infrações
E a proletária desencantada ganha a subsistência
Pelo minar das infiltrações e rumores
A sua vibração fede os cães ladram-lhe
E as crianças fogem dela pois lança boatos
Sem ética e sem querer saber dos factos

A dissimulação anda de mãos dadas com o patogénico
Espirra e contagia espezinha prazenteira
E aos leprosos mentais se associa inteira
Fazem todos uma roda e cantarolam alegremente
Pensando que o seu reino é absoluto
E podem provocar o luto
Mas não sabem as viçosas diabinhas
Que as aprisiono nas entrelinhas
E mais tarde ou mais cedo num empurrão certeiro
Vão todos para donde vieram nos confins das estrelinhas

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