Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Escorpiões



Preparam-se os ferrões dos lacraus
Para a picadela macabra sobre os criativos
Que ousam ameaçar os cânones da estática farsante
O ferrão contaminado pelo veneno da vaidade
Introduz a virose do desejo destruidor
Em geometrias de contentores herméticos
Onde o sábio conhece de memória os preceitos dos patéticos
E as proibições dos coices despropositados
Das zebras revoltadas com a esquizofrenia tolerada

Os escorpiões impedem a passagem
Cortam caminhos escondem-se nos ninhos
E esperam os que ousam rasgar as normas
Inventar novas formas criar múltiplos conceitos excluir eleitos
Assobiar para multidões surdas
Gesticular para marionetas deste circo de carrossel de lesmas
Que espera os palitos dos caracóis para o pôr em andamento
Com a ajuda do incerto vento

Os lacraus erguem a cauda em ameaça aos famintos
E matreiros escondem-se debaixo das pedras
Na sombra das artimanhas velhas
Mas há uma espada nobre à espreita
Que acaba depressa com as carcomidas capelinhas
Uma tela silenciosa pronta para ser baralhada
E inventar uma letra nova
Umas mãos em posição de voar
Uns pés prontos a flutuar
Uma pintura saída das cores por inventar
Uma escultura absorvendo os olhares da indignação
Do choque surpreso da incompreensão
Um livro escrito ao contrário de baixo para cima
Da direita para a esquerda em diagonal

O ferrão do escorpião agita-se
Mascara-se de amigo colorido
E ergue a cauda em hipnotismo cinzento
Por entre o enxovalhado lamento
Mas um dia destes é atraído no maremoto da vida
E enterrará a sua semente noutra galáxia
Criatura rastejante calculista fria e degradante!

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