Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

domingo, 20 de novembro de 2016

Incorporação



Misturo-me no acontecer
E mantenho uma relação de estranheza
Com o meu próprio ser
As partículas caóticas estrebucham
Obedecendo à lei recôndita
Dos abismos cósmicos como breu
Enquanto persigo corpúsculos semelhantes
E rodopio na mesma oscilação 
Abandonando o meu corpo ilhéu

Pertenço a algo maior que as minhas mãos
A viagem que empreendo
É repleta de caminhantes errantes
Mas talvez nos juntemos e criaremos um mundo de flores
Ou permaneceremos divididos
Numa encruzilhada onde a difração
Desenhará outros selos novos fósseis
Gigantes estrelas que perfazem
A galáxia de inalcançável dimensão

É que o sofrimento que me prende os pés aqui é tal
Que me amordaça a boca me corta a língua
Me decepa os membros e me amarra ao leito
Que deixa de ser descanso
E cravam-se os pregos no corpo
Que deseja o alívio que a dor para longe varre
A mansidão da morte dos sentidos
É ansiada por outros códigos e ligações
Em que a lâmina deixa em misericórdia de cortar a carne!  

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