Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Perpétuo mendigar




Tateio na escuridão de um glaciar
Onde blocos gigantescos me comprimem a respiração
Ansiando pelo vento fértil dos planaltos é  para aqui que viajo
Me sinto de alma ampla e serena
A obscuridade fumarenta do submundo
Causa-me o desconforto da vigília eterna
Da úlcera encrespada em mim
Que me corrói por dentro sem fim

Afago as nuvens lácteas mas esbatem-se em perfis grotescos
Rindo da hipocrisia humana
Não tenho o dom da palavra o silêncio instalou-se
E o conforto é tão pleno
Que de boca fechada nem uma palavra permanece instalada
Apagando a insignificância de circunstância corrosiva
Nesta penúria transformada em inferno

O salto para o nada não tarda
Só aí me enfeitarei de transparências
Em alívio desta loucura disfarçada de doçura
Este mendigar perpétuo buscando descobrindo inventando
Criando na demanda existencial
Permanece embutido para lá dos corpos mortos
Incrustado em cintilante cristal

A ponta da agulha



Espetam-se as lanças por entre as raízes do meu corpo
Que esvoaça para lá do horizonte para lá das estrelas
Que assinalam fósseis de enganos de organismos estranhos

Aguardam os bípedes os amantes do sangue a fervilhar nas veias
Que assinam um contrato com a ignorância na ponta da agulha
Divertidos com o espetáculo qual explosiva faúlha

Fruto da sobrevivência somos combustível que atiça a gula
Dos que manobram a invisibilidade dos corcundas desmembrados
Pela transmigração dos fracos dos cobardes dos acanhados
Dos eternamente perdidos e acidentalmente achados

E neste devir constante somos pedras esquecidas no ventre da Terra
Luas em translação abraçando o corpúsculo deus do conflito
Escuridão abismal do cosmos infinito que na cantoria das marionetas
Constrói a engrenagem que nos dá o alimento e também nos retira o sustento