Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Gargalhada



A gargalhada soou por entre o nevoeiro de ignorância
Abalroada pela monotonia e tédio açambarcadores de intelectos
Doentes esfomeados de pomposidades mascaradas
Por diademas imperiais perfazendo bonitos bonecos

Os murmurinhos das rãs viscosas
Esperam as piruetas saltitantes dos sapos
Onde o carnaval é permanente
E se espera a cada ciclo os verões quentes
Por entre metamorfoses inconsequentes

O riso estático teima em lançar
O fogo-de-artifício queimando os arbustos
Provocando sustos

A gargalhada ecoou mais uma vez e outra
Defecou atabalhoadamente de forma surpreendente
Mas silenciou e no seu limite de grunha pensou
Que ninguém a ouvia e aparvalhou

Frustrada com o investimento obtuso da casquinada
Que não servia para nada
Continuou ignorante desconhecendo que nada tinha
A não ser lamber o ego confuso da carneirada

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

A desarmonia das cordas


O embaraço enleou as cordas em dissonância
Que em linha reta cosiam os caminhos
Das espécies em vias de extinção
Pulsando fracas imaturas tontas criaturas
Sugam com as trombas invisíveis os fundos
A energia vibratória a outros trombudos imundos

Nada inventam nada criam
Tudo se rouba se copia num exercício infecundo
De mais do mesmo abalroando os sonhos
Andam estes invertebrados tão longe do carreiro
Fazendo um pacto de sangue com a imbecilidade
E tatuam  o peito orgulhosos do feito com o dinheiro

A exterminação das espécies está codificada
Na proliferação de múltiplas faces vários disfarces
No fogo-de-artifício das estrelas
Na contaminação das células
Onde se alastram as maleitas
Com a inteligência fecunda das marés rarefeitas

domingo, 7 de fevereiro de 2016

O zumbido das abelhas



A cantilena instala-se e espraia-se
No espaço comprado ao ladrão celular
Onde as vespas constroem o ninho
Os cascos das éguas raspam o piso arenoso
Congeminando a ruína de outros quadrúpedes
Que empestam os lagos de lama
Nos cornos dos touros inventados em penúria
Em liberdade bestial pela lezíria

A força bruta ignora que o vespão cintilante
Prepara o veneno açambarcador de vontades colossais
Fazendo dos humanos personagens raivosas de computador
Que aguardam a extinção dos canaviais

Crescem as borbulhas nas línguas afiadas
Das serpentes entrelaçadas
Deliciando-se com a viscosidade alheia
Perspetivam a constrição da anulação da espécie
Enquanto devoram a refeição antropofágica
Ao mesmo tempo que as abelhas se entrecruzam
Em piruetas num zumbido contagiante
De centelhas hipnóticas em falsa melódica

O zumbido das abelhas vence a besta
Derruba o humano que indiferente dorme a sesta
E nem o grito final de socorro abana o ferrão
Da bruxa esvoaçante decidida a instalar-se
No paraíso dos inocentes sem remissão