Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Continuum



O incansável emergiu à superfície do deserto
Onde os componentes expõem em tela gigante
As variantes infinitas do visível e invisível
Açambarcando as forças orgásticas do movimento

O eterno inesgotável permite às feras que matem
Aos esfomeados que sofram
E no meio da catadupa sem lógica humana
Perdem-se os bípedes no jogo
Da velocidade fantasmagórica do onírico
Onde os lagartos ficaram esquecidos nos pântanos
Sem puro espaço sem tempo

As falésias deixam de ser poiso das águias
E as grutas escondem os ovos de criaturas do futuro
Arrastados pela impetuosidade das correntes

Os vulcões adormecidos revoltam-se e acordam
Para as fornalhas acesas
Onde os corpos em cinzas renascem pela erupção
Consciências desligadas da luz
Esperando a ausência de juízos finais
Aguardando a lucidez genuína do continuum  
Para que enxerguem a descamação da pele
Visionem o envelhecimento tatuador
Se apercebam da coloração variada das estações
Como estados sucessivos de metamorfose
Onde o duplicado paira até à reprodução seguinte
Em mimetismo profundo
Ser em impermanência ainda prisioneiro de uma cápsula
Contentor dos átomos em expansão
Onde estranhas melodias abrem portais de ligação


Reciclagem cósmica




Seres ocupam o espaço
Em distensões paralelas aos oceanos sólidos
Onde as sementes de luz aguardam
O tiro certeiro da partida
Cauterizada de influxos e refluxos

Aproveitam-se as lixeiras
Para a construção de abrigos
Dos perdidos dos pedintes dos alienados
Dos políticos dos charlatães dos drogados
Esmeram-se os artesãos na feitura dos anéis
Que alindam os dedos dos reis
Por nascer em reinados insubmissos

Corpos de carvão erguem-se do ventre da Terra
Aquecendo os espectros ostracizados
Das conjuntivites perenes das cegueiras das cisternas
Onde o corte a fusão o batuque
Nos meandros de mistério do cosmos
Acrescenta predomínios  ressurgidos  e forjados

Rebentos de nada



A cada sucessão
Rebentos colhem do eterno o suco da vida
Onde a passagem de testemunho
Passa a mensagem da luz
Que constrói um casario de células adventícias
Bordadas nas visões dos gigantes
Que escavam cavernas do acontecer faiscante

Permaneço ainda na escadaria de acesso ao lar terreno
Sobre um rio turbulento de correntes imparáveis
Sem origem nem destino
Sem laços sem pátria sem hino

As pedras soltam-se na subida
Em queda livre sobre a água flutuando à superfície
 Como se fossem boias de salvação
Onde as criaturas se apoiam
Absorvendo o alimento das clorofilas
Mas pedras não são!
Ondulam como flores de Lotus sustentando os pássaros

Não subo a escadaria de pedra
Não alcanço o lar
Vagueio também na corrente
Que não sei para onde me leva
Mas que importa!
O poderio imenso dos elementos transporta-me
Pelo indizível ilimitado
Fecho os olhos e misturo-me
Mesmo como ser inacabado