Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

quarta-feira, 16 de março de 2016

Pássaros negros




Finalmente os pássaros negros levantaram voo
Para outras paragens ansiando por outras aragens
Curando os assassinos de meninos
O choro soou no silêncio das mágoas
As mãos cobriram o rosto da culpa programada
Nas subtilezas do sol afastando nuvens negras pesadas

Desabrochou a cura dos inocentes
Na estrada que se estreita a cada avanço
E cada passo para outros carreiros
É a queda no abismo o falhanço

Não há rede que segure o voo
Do desmembramento dos corpos
Porque a união permanece no estilhaçar dos elementos
Na vibração de vida dos sedentos

A faísca que sai do impacto da espada contra a pedra
Torna-se o processo encadeado do conhecimento cósmico
O elo de ligação às gerações
Mentes prisioneiras do instinto de sobrevivência
Do medo paranoico das impostas tradições
Onde a manipulação é rainha a escravatura domina
E o sentimento falsete de posse chacina

Ah! Ponte que atravessamos mesmo partida esburacada
Sem alicerces mal acabada com madeira
À floresta sagrada roubada
Havemos de ultrapassa-la!
Com a delicadeza de quem coloca um pé adiante
Segurando o outro
Escolhendo o piso que não parte
A tábua que aguenta o peso
O corrimão que nos dá a mão

Iremos descalços genuínos
Apenas enfeitados com a luz das estrelas
E haverá a paz existente
Que transborda em cada semente
Que desabrocha em cada árvore
Que cresce em direção ao céu azul sem nuvens
Transporemos então a porta bruta de mármore


domingo, 13 de março de 2016

Processamento do nada



Distendo o bailar no alcance da chegada
Sem saber qual o começo o lugar da partida
Porque o salto mortal que empreendo
Transforma-se em passagem bifurcação
Extensão explosão abrangente portal

O fervilhar das células anuncia o desembainhar da espada
Uma lava incontida rebuscada no processamento do nada
Lugar de estados relativos fortuitos que vivificam
Na incongruência dos desentendidos

Sou salto no ar
Asas que planam no flutuar
Sou o abanar das folhas das árvores
Sou tronco amadurecido
Dando sombra ao faminto
Sou ramo caído fragmentado em rodopio
Pelo vendaval pelo frio
Sou estrela sou rasto criatura atropelada
Sangrando no imperfeito no não eleito
Sou a dimensão imensurável
A canção por cantar
A luz por alumiar o aparente morrer
Perdida na lacuna interminável do verbo ser