Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

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A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sexta-feira, 3 de junho de 2016

A ligação dos espectros


Acontece no mais profundo dos enleios cósmicos
Uma onda de choque que agita
Na imensidão negra a mais ínfima das criaturas
Mistura o mais resistente dos elementos
Criando esculturas gigantes
Onde poisam os parasitas da viagem dos impulsos
Depositando nos asteroides os códigos milenares
Dos seres bafejados pela luz das estrelas
Enquanto as partículas perfuradoras
Mensageiras das ligações
Saltitam de elemento em elemento
De átomo em átomo de molécula em molécula

Há uma raça perdida entre os espectros
Que permanece na ignorância dos carrascos
E na ingenuidade dos inocentes
Que se pavoneiam julgando-se autónomos
Imperadores do cosmos
Canibais dos pântanos
Bichos de iniciação à era tecnológica
Jogadores de videojogos e cérebros moldáveis
Ávidos do folguedo mais atraente para seu deleite
Alheamento do mundo distanciamento da vida

Há uma raça que se autodestrói pela ânsia do ter
Para além da ligação dos espectros
Implode sobre si mesma vendendo a alma
Em busca de fantasias de grandeza

A ligação dos espectros conduzirá as criaturas
Para zonas de contaminação
Onde o exercício de sobrevivência
Será um jogo de vida e morte nesta sublime esfera
Mas onde os perpétuos elos de passagem
Orientarão os sábios amantes da Terra

Gotas de suor


Juntam-se as gotas de suor e escava-se um lago salgado
Impróprio para vertebrados e invertebrados
Rebentam as veias como condutas
Em avalanche das picadas dos intrusos

Os vírus parasitas prendem-se aos respiradouros
Sugando energia corroendo os alvéolos
Da linguagem edificada
Sobre a ética paupérrima  inventada

Desejam a extinção dos pedestres
Os carrascos maquiavélicos inventores
De aparelhamentos de tortura
Sobre os seres à mercê de fantasias e sonhos

O esqueleto quebra em estalidos de uma velha melodia
Anunciadora de mortalidade animal sustentada na folhagem
Formam-se istmos onde outrora cantavam pássaros nas ilhas virgens
Crescem linhas e montes carreiros de bolores
Que consomem o sangue das criaturas
Amedrontadas pela vertigem deste rodízio de circo
Que gira sem parar e que consome os pulmões
Os músculos os ossos das criaturas
Que entregam com gritos de pavor o seu testemunho
Antes de caírem por terra

As esferas contaminadas



Surgem as esferas contaminadas
Onde os besouros fazem razias entre as frestas
Que dão para o cosmos indiferente à jornada

A multiplicidade das espécies gera a fartura biológica
Perpétua no seu processo cíclico de se eternizar
Na miscigenação da saudável vizinhança
Comunicante sem doença

O fungo solta-se quebrando a esfera branca
Em luta de afirmação pela vida
E por entre o velho pinheiro
Desintegra-se em chão protetor
Deixando o cálice desguarnecido
Esperando outro intruso desenraizado

A esfera é feita do som dos trovões
Do iluminar dos clarões do tremer da descarga elétrica
Os ovos sacudidos desenvolvem-se sobre a terra
Depois das chuvas de Primavera e das trovoadas
Iluminarem as silhuetas enlameadas nos charcos
Dos carreiros onde as varejeiras possessas

Vêm sugar os líquidos apeçonhentados

O espírito da floresta



O espírito da floresta inundou as veredas
De raízes entrelaçadas sustentando o teto das grutas escuras
Onde os morcegos trocam de lugar
E aguardam o saborear dos frutos maduros
Expelindo as sementes que assinam acordos com a turfa
E nos abraços do sol se deleitam
Em paliçadas erguidas do chão sagrado

Ainda é tempo das cigarras silenciarem o crepitar estridente
E captarem as melodias verdejantes de outros seres
Que à capela cruzam vozes pintam quadros
De outras formas e cores
De outras criaturas que cinzelam a pedra
E criam movimento e encantamento

O espírito da floresta protetor das crianças
Que se balançam nos ramos das árvores
E brinca com elas o jogo das escondidas
Faz crescer os fungos aberrantes que atraem os ingénuos
Os fascinados pela beleza aparente de um arco-íris inexistente

O estio chegará com as cigarras estouvadas
A insistirem na algazarra estridente
Quem sabe se finalmente partirão para um lugar incerto
Deixando-se seduzir pelo odor de fungos vistosos
A saltitar aqui e ali para regressarem ao estado larvar
E sem o espírito da floresta incomodar