Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

domingo, 14 de agosto de 2016

Gravidade




Sinto um peso que me prende os pés ao chão
Uma dor disfarçada de cansaço de perdição
Onde milhões de seres minúsculos
Me comprimem as pernas em redor
De uma fogueira ateada em corpo frustrado
Com o sopro traiçoeiro de um respirar esgotado

A gravidade consome-nos os sonhos
Os labirintos da sociedade esquartejam-nos a dignidade
Os governos mascarados de protetores
Sugam-nos o sangue chicoteando
Cada um que silencia as injustiças os horrores

Quero os tambores anunciando o ritmo
E o batimento do meu coração
Que ecoem numa floresta virgem
Repleta de trepadeiras verdejantes
De árvores majestosas gigantes
Onde os pássaros de grandes asas acasalam

Quero os tambores anunciando
O meu voo para outros portais
Porque o peso me derruba na escaldante aragem
Massacra!
Atira-me para um solo profundo
E no limite da velocidade anseio a paragem

Mesmo uma velha carruagem
Que me leve para lá da visibilidade enganosa
Onde os meus olhos se detêm
Mas nada do que mais anseio veem