Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Alforrecas





As encenações dos tentáculos estrangulados
Provocam o vómito dos pedestres donos de bocejos
Feitos de obsessões e neuras
Indiferentes às bóias flutuadoras traiçoeiras
As alforrecas calculam o golpe certeiro
Provocadoras de pueris coceiras

Entre os distraídos da transparência anémica
Aguardam a vítima no encosto do desconforto
Por entre picadas transformadas em paródias ardentes
Onde os foguetes dos festejos
Comemoram o ritual do desfalecimento das gelatinosas
Que se espraiam ao sabor das marés
E trocam beijos e abraços entre si
Enrolando-se na sua própria malvadez

As alforrecas proliferam mesmo de tentáculos quebrados
De corpos desmaiados e cortados
Julgam estas criaturas sem espinha dorsal
Que podem ameaçar outras criaturas
Desprevenidas e inocentes no passeio sobre o areal

Mas engano das deslavadas!
Observo-as em ação na movimentação
Das águas da maledicência
Obrigo-as a posarem para mim
E assim de perto sentindo-lhe a vontade de esganar
Porque lhes está na essência
Passeio indiferente a todos os venenos
Ao ódio à inveja à pequenez de espírito à cega ganância