Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sábado, 1 de outubro de 2016

O vómito da instabilidade



A trepidação da caravana revolve as entranhas
Que procuram imperativamente uma abertura
Contrariando a natureza do corpo calvário
Para sobreviver em terreno hostil
A velocidade estonteante cria coágulos de fel
Amargurado pelos horrores de um pesadelo diário

A garganta aperta-se em auto asfixia
Obedecendo à fuga duma zona de perigo
Lixeira humana nauseabunda
Onde não há amor apenas inimigo

A náusea amarra-me os membros
Persegue-me pela vida fora aperta-me o pescoço
Afasta-me dos humanos que me parecem estranhos insanos
Trai-me no cruzamento dos caminhos meio tonta
Conduz-me às veredas dos bosques aos lagos das montanhas
E em alívio deixo para trás a tagarelice das galinhas
Ignorando os pintos feitos de inocência à solta


Pestilência



A contaminação instalou-se mesmo acabrunhada e mal-intencionada
Mas deu sentido à sua essência e adubou as criaturas
Carcomidas pela fome de matança
Pela loucura da mais ditadora crença
E o que provém da peste consome célula a célula
Em perfeita irreverência
É então que a preciosa palavra cortada pela descrença
Da tesoura do carrasco produz o fel mais amargo
No vómito incontido e violento do asco

Entre o passo desajeitado das criaturas apressadas
Concentradas na ladainha  estridente
Do quero exijo espezinho se for preciso
No seu egoísmo fechado
Entre as frases lamechas poéticas
Porque a mensagem saiu imune e transparente
O erro de ortografia foi perdoado meio perdido
Sobre as arquiteturas esqueléticas
E alcançou o recetor mesmo distraído

A pestilência permanece na incongruência das rotações
Amedrontadas pelas intempéries tresloucadas
O estrabismo humanoide distorce as perspetivas
Da fauna e da flora vivas
Enquanto o roer das unhas agita o espírito dos inadaptados
E o erguer dos punhos dos revoltados