Um poema acontece no meio de uma tempestade medonha perante o horror mesmo dissimulado da existência humana.
É um processo de libertação de amarras, esquecer o que nos incutiram na mente programando-nos, e avançar sozinho, porque a solidão é parte integrante do poeta. O poema rodopia em redor do ilimitado, do informe, sem norma, do inconstante, do movediço, em ligação com outros espaços moventes. Sobe até onde os pássaros voam, instala-se até onde os deuses guerreiam, afunda-se na espeleologia até onde os vermes se escondem.
O poeta flutua na sua voz, dá o grito da revolta e liberta-se dos grilhões da sociedade inventados nos chifres dos adoradores de esmeraldas!

luz

luz
A luz que ilumina a alma deve conduzir os passos...

sábado, 29 de outubro de 2016

Estado ondulatório



Abatem-se sobre mim os raios solares
Num macrocosmos que me invade o corpo minúsculo
Agarrado à rocha que faz um pacto livre
Com a melodia fulgurante do mar
Enquanto uma criatura sem rosto cintila
Mensageira do vaticínio de uma longa noite
Na ausência de circunstâncias e ocorrências definidas
Sobrepostas como pétalas de rosa
Umas contra as outras comprimidas

E o espaço descontínuo alarga-se
Na imprevisibilidade das mutações
Praticam-se as matanças como desígnios de exaltação
Das probabilidades que se fazem reais
Filhas da genética dos caprichos transcendentais
Onde o acaso e a necessidade criam difrações
Folguedos rastilhos foguetes e distrações

Não estou aqui nem ali
Salto mundos de vertigem e percorro carrocéis
Que se deslocam para lá da velocidade da luz
Divido-me subtraio-me
Multiplico-me e somo-me
Perante a simetria bela com que me brindo
Venho do mistério embrulho de nada
Não me movimento nem permaneço parada
Estou alada e ao divino ligada